O presente texto surge como réplica ao “Abril em Novembro”, da autoria de António Conceição, publicado na Revista Minerva a 20 de Setembro de 2025 (https://revistaminerva.pt/abril-em-novembro/)

Antes de mais, cumpre-me felicitar o autor pela elaboração de uma análise histórica e pelo exercício de reflexão que empreendeu, o qual merece ser devidamente reconhecido. Todavia, embora considere o seu raciocínio de interesse, entendo que a argumentação apresentada carece de maior fundamentação e rigor crítico, sendo, por conseguinte, passível de revisão.

A linha de argumentação sustentada pelo autor pode, em síntese, ser condensada nos seguintes pontos essenciais:

  • A vitória da democracia de matriz ocidental ter-se-á consumado nas eleições de 25 de Abril de 1975, data que, segundo o autor, assume carácter exclusivo de relevância histórica.
  • O Partido Comunista Português e Álvaro Cunhal teriam reconhecido de imediato a derrota e aceitado os resultados eleitorais sem reservas, encerrando assim o processo político em curso.
  • O 25 de Novembro teria sido, nessa perspectiva, um episódio de escassa importância, reduzido a uma intentona protagonizada por sectores da extrema-esquerda que se recusaram a aceitar o desfecho eleitoral de Abril de 1975.

O que o autor omite, ou pelo menos não enfatiza devidamente, a propósito dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, é de particular importância para uma leitura mais completa do período.

Entre Abril e Novembro de 1975 decorreu o chamado “Verão Quente”, amplamente documentado e caracterizado por manifestações, ocupações de fábricas e de propriedades rurais, bem como por episódios de violência política de considerável intensidade.

Nos dias 12 e 13 de Novembro, o Palácio de São Bento foi sitiado por trabalhadores da construção civil afectos à Intersindical/CGTP, estrutura sob forte influência do Partido Comunista Português (PCP).

Importa ainda recordar que Álvaro Cunhal nunca demonstrou verdadeira confiança naquilo a que chamava “democracia burguesa”. Segundo o testemunho da dissidente Zita Seabra, que o ouviu em primeira mão, e como o próprio registou em Rumo à Vitória, Cunhal afirmava: “a revolução democrática nacional está feita, agora temos de avançar para o nosso Outubro”, aludindo claramente à perspectiva de uma insurreição popular armada.

De igual modo, Manuel Durão Clemente, do RALIS, ao invadir o estúdio da RTP em Lisboa, lê, segundo a mesma fonte, um comunicado similar ao dos “Metalúrgicos”, pertencentes à Intersindical controlada pelo PCP.

Outra figura de destaque entre os insurrectos de 25 de Novembro foi o “coronel vermelho” Varela Gomes, homem de estreitas ligações ao PCP, cuja actuação se revelou significativa no desenrolar dos acontecimentos.

Por fim, é sabido que a tentativa de golpe foi abortada pelo PCP após uma conversa privada entre Álvaro Cunhal e o Presidente da República, Francisco da Costa Gomes. Embora o teor dessa conversa permaneça desconhecido, tudo leva a crer que tenha existido um acordo tácito que permitiu ao PCP manter-se legalizado e evitar uma repressão directa.

Determinante para a decisão de Álvaro Cunhal em desmobilizar o movimento foi, contudo, a ausência de apoio da Força Aérea, concentrada então na actual Base Aérea n.º 8 (Maceda, Ovar), na Região Militar do Norte, então sob o comando de Pires Veloso.

Assim, o autor apresentou uma leitura simplificada e ideologicamente selectiva do processo revolucionário. A sua narrativa deixou de fora elementos fundamentais, como o ambiente de tensão social, o papel decisivo das estruturas sindicais e militares e o próprio risco de conflito civil, que são essenciais para compreender o 25 de Novembro na sua verdadeira dimensão histórica.

Esse dia foi o culminar de um processo intenso, em que se enfrentaram projectos de sociedade opostos e em que o risco de guerra civil esteve presente. Tratou-se de um ajuste de forças, com a derrota militar da esquerda, o início da estabilização institucional e a recomposição das chefias militares, abrindo caminho à aprovação da Constituição de 1976 e à consolidação da via parlamentar.

Em conclusão, e em nome da verdade histórica, pode dizer-se que o 25 de Novembro deve ser recordado, mas não necessariamente celebrado como feriado nacional. Recordá-lo é reconhecer o que nele houve de travão e de ruptura. Celebrá-lo seria impor uma leitura oficial da história e apagar o papel, as hesitações e os silêncios de protagonistas centrais, entre eles o PCP, cuja actuação contribuiu, em momentos distintos, tanto para a escalada como para o desfecho.

E porque houve ainda focos de resistência no dia 26 de Novembro, e apenas nos dias 27 e 28 se repôs a normalidade, mais do que festejar, importa compreender e desmistificar, pois a história não se escreve a preto e branco, e as suas datas, quando exaltadas sem reflexão lúcida, perdem o valor que as torna dignas de memória.