Contra o desprezo do inocente — a propósito da crónica de Isabela Figueiredo sobre O Preço Certo.
Li com atenção a recente crónica de Isabela Figueiredo, “As minhas normais utopias”, onde a autora declara que O Preço Certo já não se justifica e pergunta por que razão estamos a financiar a nulidade com os nossos impostos.
Não se trata de uma simples opinião televisiva , mas de um gesto moral. Figueiredo não se limita a dizer que não gosta do programa, declara-o indigno do espaço público. E é nesse gesto, mais do que na crítica em si, que o texto revela a sua verdadeira natureza.
A crónica começa num registo íntimo, quase doméstico, a escritora senta-se no sofá, liga a televisão sem som, observa os movimentos coloridos de um país que parece distante. É uma boa entrada, melancólica e observadora, que poderia ter conduzido a uma reflexão sobre o conforto e a solidão. Mas logo o tom muda para o “chinfrim” do programa, o “valor cultural nulo”, que, diz, todos pagamos.
O olhar terno cede lugar ao olhar severo. A autora, que no início parecia interessada em compreender o quotidiano popular, termina por o julgar.
Curiosamente, reconhece a autenticidade do público, a ternura de Fernando Mendes e os portugueses reais que ali se reúnem. Mas esse reconhecimento é apenas o trampolim para a condenação. O povo, visto de longe, é simpático, ouvido de perto torna-se incómodo.
O texto contém, assim, uma contradição essencial, confessa que não suporta o som do programa e, no entanto, fala dele como se o conhecesse em profundidade. Julga-o em silêncio, literalmente. É um detalhe revelador, o ruído que rejeita é, afinal, o ruído da realidade.
O alvo da crónica não é O Preço Certo. É o país que o vê.
Um país que ainda se reconhece em queijos e enchidos, em plateias que aplaudem, em prémios que são símbolos modestos de alegria. Há nisso uma humanidade ruidosa que incomoda a autora, talvez porque lhe recorda a terra de onde veio e a que já não quer regressar. O texto transforma o gosto popular em culpa fiscal, o problema não é o programa, é o facto de o estarmos a financiar com os nossos impostos. A estética transforma-se em moral tributária.
Mais inquietante é a omissão. Se a preocupação fosse realmente com a qualidade da televisão pública, o alvo natural seriam os reality shows que transformam a vida humana em espectáculo, a intimidade em mercadoria, e a humilhação em entretenimento. Mas esses programas, pagos por canais privados, não merecem uma linha.
Figueiredo volta-se contra o inócuo, não contra o indecente.
É fácil indignar-se com o inocente… exige coragem criticar o que verdadeiramente degrada.
Há, portanto, algo de profundamente revelador neste desprezo, o mal-estar de uma elite que olha o povo com uma mistura de ternura e vergonha. O texto é menos sobre televisão e mais sobre a dificuldade de amar o país real.
Quando escreve que “a televisão continua ligada porque constitui uma relativa companhia”, Figueiredo fala de si própria, não do público. O ecrã mudo é o espelho da sua solidão intelectual e, talvez, o país que lhe devolve um reflexo demasiado ruidoso.
O Preço Certo pode não ensinar nada, mas oferece algo que a literatura e a televisão raramente oferecem em conjunto, uma alegria despretensiosa. É um ritual comunitário onde o país se revê, mesmo que de forma caricatural.
Transformá-lo em símbolo de nulidade cultural é recusar essa comunidade.
O que está em causa, afinal, não é a qualidade do programa, mas a velha hierarquia entre quem se julga culto e quem apenas vive.
Em tempos, Isabela Figueiredo escreveu sobre a vergonha e o corpo com brutal sinceridade. Agora, parece dirigir essa mesma energia contra a alegria alheia. O seu texto não denuncia a mediocridade da televisão, denuncia o prazer popular de existir.
E isso, mais do que elitismo, é uma forma de tristeza.
