Newsletter: Novembro 2022

Começamos com dois fantásticos artigos. Um, de Carolina Nascimento de Oliveira, com a análise do caso da fábrica Sogantal, a partir do Jornal Combate e do Jornal da Sogantal, no contexto do período revolucionário português do final do século XX. Outro, de Vanessa Nunes Monteiro: uma análise à difícil fronteira entre liberdade de expressão legítima e liberdade de expressão na fronteira do crime, de acordo com a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

De Itélio Muchisse e Joaquim Mbanguine, sobre a responsabilização da universidade moçambicana e dos seus agentes de cooperação e da própria comunidade no desenvolvimento de iniciativas baseadas no meio local de modo a gerar um impacto global. E de Luciano Botelho da Silva sobre a função do teatro de ópera durante a primeira república brasileira, como se manifesta e dialoga com a sociedade e a organização política cultural, e participa do movimento nacionalista.

De Sofia A. Carvalho, um texto sobre a hoje famosa, directa ou indirectamente, editora discográfica britânica 4AD, parte de uma rubrica regular da autora sobre música e cinema, intitulada SKierion. Se não conhecem, bastará referir que a chancela é responsável pelas edições de Pixies, Red House Painters, Cocteau Twins e mais recentemente The National e Bon Iver. O seu registo é em geral o do rock alternativo, introspectivo, negro, auto-consciente, etc., da música dark ambient e algum dream pop. Aconselhamos também a obra biográfica Facing the Other Way: The Story of 4AD. E de Nariá Assis, professora de teoria musical, um texto com uma abordagem ao ritmo, na sua versão não-pulsante, em algumas composições de vanguarda, tradicionais e de música popular alternativa. A imagem é uma sinopse gráfica com alguns dados analíticos de Atmospheres, De Gyorgi Ligeti, feita por Didier Guigue, musicólogo, com alguns vídeos muito interessantes no seu canal de youtube.

Oito Mil Milhões de Pessoas

No passado dia 15 de Novembro, celebrou-se o dia em que, mais ou menos simbolicamente, a contabilização da população mundial presentemente existente atingiu o número redondo de oito mil milhões de pessoas. Ao contrário da visão apresentada pela maior parte da comunicação social, não cremos que seja uma ocasião para preocupação e catastrofismo, influenciada por teorias malthusians ou parecidas, mas sim que é caso para um enorme festejo, para uma celebração das conquistas de melhoria da qualidade e da esperança de vida ocorridas ao longo dos últimas décadas, nomeadamente no pós-guerra, e para um enorme orgulho da parte de todos em pertencer a um tipo de coisa, a uma forma de vida, a da espécie humana que, de modo geral, tem apreço e curiosidade e amor pelo seu próximo e que se congratula com ter construído um lugar, sempre efémero porém, em que a vida colectiva de oito milhões de pessoas é possível. Não estamos sozinhos nesta celebração: as Nações Unidas acompanham este tom laudatório e festivo da data, acautelando porém, como é sua responsabilidade, os desafios relacionados com a manutenção e a melhoria deste estado de coisas. Deixamos duas ligações para assinalar a ocasião: convidamos todos a visitarem o site ourworldindata.org, onde encontrarão um trabalho notável de recolha de dados de inúmeras fontes nacionais e internacionais, e onde poderão verificar as enormes evoluções em termos de qualidade de vida desde o passado século, nomeadamente quanto à erradicação da pobreza, a nutrição, a esperança e a dignidade de vida em geral; e convidamos também a tentarem obter uma cópia de um livro relacionado com aquela que é uma tradição universal e fundamental para que toda esta celebração da existência humana tenha lugar, o casamento: Marriage Customs of the World: An Encyclopedia of Dating Customs and Wedding Traditions.

Uma Ideia sobre Universidade

Um excerto da circular do diretor da Faculdade de Letras, Miguel Tamen, que publicamos à revelia, e que representa uma posição com a qual nos identificamos totalmente.

Sobre Micro-Manifestações na Faculdade de Letras de Lisboa

Um artigo de Ricardo Fortunato sobre a birra de quinze manifestantes na Faculdade de Letras de Lisboa e a amplificação que a comunicação social e as redes sociais fazem do assunto, em nada correspondente à opinião da maioria dos estudantes dessa faculdade.

E uma espécie de posição editorial sobre o assunto, com vídeo de “reportagem”.

Tirado na Faculdade de Letras de Lisboa, às 16h15 do passado dia 15 de Novembro. Cerca de 25 a 30 pessoas empunhavam, à porta da faculdade, uma faixa a dizer “Tamen, a FLUL é nossa!“ Dado que alguns nós são alunos nessa faculdade, queríamos salientar que a faculdade não “é” nem dos quinze manifestantes que toda a semana passada acamparam no átrio a fazer barulho e a bloquear a entrada; e que a faculdade também não “é” destas vinte e cinco pessoas que hoje compareceram. A faculdade “é” dos cerca de cinco mil alunos que lá estudam e que, como se pode ver, não se identificam propriamente com estas acções confusas, politicamente motivadas e sectárias. Estamos, assim, do lado dos alunos, não daqueles que acham que falam em nome de todos os alunos.

E assim continuaremos.

Ambientalismo e Profecias do Fim do Mundo

Em tempos de cimeira do clima e protestos da parte de ativistas quanto às consequências especuladas sobre o futuro próximo, uma obra fabulosa onde podemos encontrar um forte quadro analógico em relação ao período presente: o livro de Norman Cohn sobre a angústia do milénio, do fim do mundo, na idade média. Aborda tudo: flagelantes, as Cruzadas, peregrinações, indulgências, e o mítico estado igualitário da natureza original, desde Cícero até Joaquin de Fiore.

Um volume fantástico, também com tradução portuguesa! Também da autoria do nosso colaborador João N.S. Almeida, um ensaio sobre as semelhanças entre o alarmismo ambiental contemporâneo e várias formas de catastrofismos apocalípticos de outros tempos.

Bispo Manuel Linda e Matias Damásio

Recentemente, o Bispo do Porto, Manuel Linda, declarou a sua preocupação com o apego aos animais na sociedade contemporânea superar o apego à pessoa, e que isso é próprio das sociedades decadentes. Como é habitual, soltou-se um clamor de indignação perante as afirmações que durou os dois ou três dias do costume (período de atenção efémera, próprio das sociedades decadentes). Mas todos conhecemos aspectos dessa ética: desde a evidente antropomorfização dos bichos até ao dito estranho, moral e religiosamente complexo, de “quanto mais conheço

as pessoas mais gosto dos animais”. É possível que a afirmação do bispo recolha algo deste estado de coisas, mas a referência a sociedades decadentes, sem especificar quais são, é possível que não seja compreensível. O ponto mais triste do episódio é como uma massa de pessoas ignorante de história e cultura pretende comentar com autoridade afirmações sobre cujo fundamento nada conhecem. Poderia dizer-se que não são afirmações destinadas ao vulgo, mas também nesse caso o bispo não as deveria ter dirigido ao mesmo. Deixamos assim duas ligações para zoolatria na antiguidade. https://www.britannica.com/topic/animal-worship e https://en.m.wikipedia.org/wiki/Animal_worship

A partir de uma citação recente e surpreendente de um artista de música negro na imprensa portuguesa, Matias Damásio, partilhamos as perspectivas adicionais de dois intelectuais negros sobre aquilo a que hoje ainda chamamos de “racismo”. Os três concordam que não faz sentido falar nesse termo com o mesmo sentido em que era usado há cinquenta ou setenta anos atrás, e dois deles chamam particularmente a atenção para o facto das discriminações de classe — seja social, económica, local/regional, etc., ou até ideológica — serem um factor bastante mais relevante do que a mera aversão à cor da pele. É um argumento que está claramente em contra-ciclo com grande parte do discurso sobre racismo e sobre negritude no ocidente, e que sem dúvida merece ser ouvido com atenção. Matias é músico e tem carreira profissional desde 2000; John McWhorter é professor universitário, linguista e membro do partido democrata; Gabriel Mithá Ribeiro é também professor universitário de antropologia e deputado do partido Chega desde 2021.

Antoine Doinel e suas mulheres

Retomando uma tradição que quase nunca temos cumprido, tivemos cinema às sextas-feiras. Fiquem aqui com um excerto inesquecível de Baisers Volés, de François Truffaut, 1968, em que o protagonista Antoine Doinel repete maniacamente o seu próprio nome e os das mulheres da sua vida defronte do espelho.

Submissões

Por fim, desejamos a todos, bons trabalhos, boas leituras, e boas entradas no frio mês do caloroso Natal, que já está muito perto. E, como sempre, o convite para nos enviarem as vossas propostas de artigos, seja em fase já concluída ou enquanto versão incompleta, mero esboço ou mesmo apenas ideia. Aceitamos, como já sabem, todos os temas de relevo, mas podem consultar algumas sugestões de tópicos aqui. Até breve!

Retrato de Elizabeth Taylor, circa 1950, actriz e patrona de várias artes: pintura, escultura, moda, joalharia, perfumaria; e também causas sociais como feminismo, homossexualidade e HIV, entre outras.