O Mandarim (Eça de Queirós): Análise Filosófica

Texto de António Rafael Domingues. Revisão de Sílvia Pereira Diogo. Imagem: Blue painted Chinese dance mask made of copper, Sweden; a photo of an artwork at the Museum of Ethnography in Sweden with the identifier: 1935.50.1014. Date 30 May 2013, 04:55:31.

“Deus é o único ser que, para reinar, nem precisa existir.”

Charles Baudelaire

Introdução

Esta obra apresenta uma incursão pelo domínio da fantasia, algo que muitos não esperariam encontrar em Eça, comumente rotulado de forma redutora como realista. Outra particularidade deste texto é o facto de quase não ter sofrido alterações, algo bastante incomum neste autor. O Mandarim foi escrito dois anos após o lançamento de O Primo Basílio e durante a produção de Os Maias e, segundo consta, terá sido uma forma de escapar à pressão do editor, ofertando-lhe esta deliciosa guloseima literária de modo a permitir-lhe ganhar tempo na redação da sua obra mais célebre.

Nesta obra encontramos como tema central o Paradoxo do Mandarim: será o ser humano capaz de se manter fiel à virtude se estiver certo de que o seu crime passará impune aos olhos da restante humanidade? Esta problemática é aliciante e estou convicto que nos remete para as raízes da ética, a verdadeira resposta relativamente a uma das questões fundamentais de Kant, Was soll ich tun? Que valor tem um código normativo meramente circunstancial e dependente de testemunha? Aceitar que um crime pode ser cometido sempre que está protegido do olhar alheio é uma negação completa da consciência (o motor de todo este enredo) e da ação verdadeiramente ética, “por amor ao dever”, que deve ser tomada independentemente de tais factos.

Esta temática é abordada por vários autores, nomeadamente Chateaubriand, no seu célebre Génie du Christianisme; nesta grande obra da língua gaulesa encontramos uma reflexão que serviria na perfeição ao protagonista de O Mandarim, que se considera positivista e racional. Tal novo homem, herdeiro de um Iluminismo empobrecido espiritualmente, está privado de sensibilidade (algo que vemos bem patente na personalidade, de certo modo vulgar e superficial, com que nos deparamos); nela não encontramos nada de autêntico (dentro desta ótica mais mística), nem de profundo ou complexo; a sua experiência religiosa é meramente decorativa e interesseira, comparada até com os jogos de sorte: “Só aspirava ao racional, ao tangível, ao que já fora alcançado por outros no meu bairro, ao que é acessível ao bacharel.” No Brasil, Machado de Assis refere também esta problemática no conto O Enfermeiro; e é no Le Père Goriot, de Balzac, que Eça de Queirós se iria inspirar para criar O Mandarim, embora adicionando muito mais elementos do campo da fantasia do que nesta obra mais realista do autor francês. Vários críticos têm feito referência a um certo eurocentrismo e a uma visão deturpada do autor relativamente à China; mais à frente, aludirei um pouco a essas descrições, mas, de momento, sublinharia a título de curiosidade o facto de Eça nunca ter visitado a China e ter extraído, por conseguinte, todas as informações que lhe permitiram a redação deste texto de obras que leu, como As Atribulações de um chinês na China, de Júlio Verne.

Neste ensaio darei uma visão geral do enredo, dando a conhecer os principais momentos e personagens que compõem esta história, procurando identificar e expor as principais questões filosóficas aqui inerentes, que não se cingem à que formulei (o paradoxo do mandarim), e que de certa forma lhe servem de complemento. Procurarei também fazer uma análise e último balanço nas considerações finais.

Existem múltiplos prismas sob os quais interpretar este texto; contudo considero praticamente impossível erradicar uma perspetiva cristã, que Eça coloca de forma explícita e implícita em cada linha. Creio que com a exposição que farei adiante ficarão mais claros os motivos pelos quais faço estas observações. É, de resto, bem nítida a presença de elementos teológicos, bem como uma constante lembrança das minhas leituras de Baudelaire, que diz nos seus Escritos Íntimos o seguinte:

” Todo o indivíduo vive ao mesmo tempo duas postulações constantes: uma para Deus, outra para o Demónio […] A invocação do nome de Deus, ou espiritualidade, manifesta sempre a vontade de nos elevarmos; mas a invocação de Satã, ou animalidade, compraz-se na queda… “.

Por seu turno, Pascal afirmou também com grande pertinência: “Qualquer cérebro bem formado contém em si dois infinitos – o céu e o inferno -, de tal forma que em qualquer imagem de um desses infinitos ele reconhece subitamente uma metade de si mesmo”.

Esta é sem dúvida uma narrativa de queda, protagonizada por uma personagem relativamente ambígua; o mal é a força que prevalece uma vez que seduz e provoca a deterioração, através da culpa e da vã tentativa de redenção; o final não é feliz nem triunfante, como veremos. No entanto, para ser mais preciso na minha análise desta história, creio que é mais pertinente caracterizá-la como uma narrativa do tipo Ícaro (ascensão-queda), uma vez que a ilusão de triunfo ainda terá algum espaço, embora de forma singular e imperfeita e em grande parte pelo facto de o protagonista ter as características que referi e que, por exemplo, Chateaubriand denunciava nitidamente.

A história

O livro principia com um prólogo enigmático que nos remete para essa transição do campo do mero Realismo e Naturalismo para um domínio mais sobrenatural.

No primeiro capítulo é-nos apresentado de imediato o protagonista, Teodoro, um bacharel amanuense do reino que tinha como vencimento 20 mil reis mensais e que residia numa casa de hóspedes na Travessa da Conceição, n°106. É descrita a sua vida pacata, monótona e medíocre, bem como o seu aspeto magro (símbolo da falta de pujança e vitalidade) e corcovado (símbolo da submissão aos superiores); tais características valeram-lhe o pejorativo apelido de “enguiço”. As suas ambições são uma manifestação da sua alma de vulgar carneiro: jantares mais saborosos em restaurantes caros, conhecer belas mulheres, etc. Considera-se um positivo e um realista, praticando um Cristianismo falso e de fachada que usa em seu interesse e que combina com a lotaria:

“As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia tudo o que devia como português e como constitucional – pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava décimos da lotaria.”

Teodoro tem por hábito distrair-se a ler livros comprados na Feira da Ladra e, certa noite, na leitura de um capítulo de título bastante revelador, “Brecha das Almas”, depara-se com as provocantes linhas que resumem este enredo:

“No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?”

Neste momento as evidências de que se trata de uma narrativa de contornos sobrenaturais começa a dar sinal: “as vírgulas tinham o retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos numa alvura de luar; no ponto de interrogação final eu via o pavoroso gancho com que o Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na inviolável cidadela da Oração!…”

Surpreendido, Teodoro depara-se com as duas visões decisivas:

1º Um mandarim decrépito deixa a vida com um simples tilintar de campainha.

2º Teodoro vê uma montanha de ouro a seus pés.

Em suma: o crime e a recompensa.

Nessa altura a campainha surge como que magicamente diante de si. Um sujeito trajado de roupas da época apresenta-se, sendo em boa verdade nada menos que o próprio Diabo — várias passagens o atestam e o próprio Eça terá denunciado tal facto por carta enviada ao editor da Revue Universell. A sua aparência parece-me querer salientar o facto de que o mal se encontra presente no quotidiano dos homens e, muitas vezes, vestindo-se a rigor.

Ambos travam um diálogo, em que nitidamente o Diabo procura convencer Teodoro a tocar a campainha. O temor do protagonista não é assinalável uma vez que nutre uma confessada descrença quer para com Deus quer para com o Diabo. O estranho personagem invoca os prazeres e vantagens inerentes à riqueza que seria a consequência deste ato, bem como elenca um conjunto de teses que visam relativizar a gravidade do mesmo, questões com pertinência filosófica:

1º As atenuantes que a natureza deste crime conferem: O facto de uma morte infligida à distância ser mais limpa e discreta e como tal de menor gravidade em relação a um crime violento e de sangue.

2º Uma desvalorização daquela vida, já velha e sem perspetivas de futuro nem grande valor utilitário. Uma clara relativização do valor da vida humana, um passo decisivo na legitimação do homicídio

3º A conceção de que a morte é essencial para complementar o nascimento, permitindo uma harmonização do mundo, a visão um tanto oriental, mas também abordada pelos antigos gregos, de que a energia e matéria de um homem falecido permitirá o florescimento por exemplo de uma bela planta. Existe, portanto, uma constante transformação e mudança (defendida, por exemplo, por Heraclito) mas, em simultâneo, uma relativização novamente da morte, uma vez que esta é transformação e não fim absoluto.

Esta ampla lista quer de vantagens, quer de atenuantes, acompanhadas de um total sigilo, levam o frágil protagonista a consumar o homicídio; o Diabo contemporâneo levanta-se e sai, o mandarim está morto…

Os dois capítulos seguintes (II e III) serão testemunho quer da ilusão de um falso triunfo quer da veracidade da queda. Decorrido um mês após o trágico episódio relatado no primeiro capítulo, o nosso protagonista chega a pensar que tudo aquilo poderia não ter passado de um sonho, uma vez que, procurando informar-se de notícias do Império do meio, não obtém nada, vai então esquecendo o ocorrido e envolvendo-se de novo na sua pacata e desinteressante vida. Sublinharia, contudo, um sonho que Teodoro teve com a Tentação de Cristo na Montanha, que é de suma importância para compreender a relação bíblica que existe de forma evidente nesta obra, que nos remete para a questão da culpa; passo, deste modo, a citar Mateus: 

“Novamente,  transportou-o o Diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então, disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás.

Teodoro aceitara cair na tentação e a sua perdição está sentenciada; a troco de ouro cometera o pecado capital do homicídio. 

Estávamos em Agosto, e, num domingo de manhã, recebe a fatídica notícia de que herdara os milhões do mandarim Ti-Chin-Fú, cento e seis mil contos! Teodoro começa então a viver uma vida de total luxo, uma completa realização do ideal hedonista, tendo alcançado tudo o que sonhara: dinheiro, estatuto, mulheres, uma mesa bem guarnecida de iguarias. 

Desfrutando de todos estes prazeres, abandona naturalmente o antigo emprego na repartição, bem como o seu quarto na pensão de D. Augusta, e vai morar num luxuoso palacete. Tal fortuna começa a molda-lhe o carácter, tornando-o mais altivo e caprichoso; a atitude para com ele também se modifica e os que o desprezavam quando ele era pobre começam a reverenciá-lo, bem como os jornais a evocá-lo de forma pomposa:

“Entretanto Lisboa rojava-se aos meus pés. O pátio do palacete estava constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janelas da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar a sotaina do Clero, e luzir o suor da Plebe… “

Existe um conjunto de aspetos fulcrais do ponto de vista filosófico nestes dois capítulos que agora abordo. Nomeadamente, uma mudança de atitude relativamente às mulheres: se, numa fase inicial da sua vida milionária, o protagonista preserva ainda uma certa inocência e pudor para com a mulher, ela perde por completo qualquer tipo de inocência, ou visão não materialista, quando o protagonista descobre que a bela e loira companheira desses dias tinha escrito um monograma galante ao alferes da vizinhança; por conseguinte, objetifica na totalidade a figura da mulher. Podemos, portanto, encontrar aqui uma bestialização e triunfo da sua animalidade, promovida pelo ouro que lhe terá possibilitado levar a cabo as loucuras outrora proibidas; toda a inocência ou pureza que lhe pertenciam foram progressivamente erradicadas: 

“deixei cair sobre a Inocência, o Pudor, e outras idealizações funestas, a ácida gargalhada de Mefistófeles: e organizei friamente uma existência animal, grandiosa e cínica”. 

Um outro apontamento que não poderia deixar de parte, remete-se para a reposta a uma problemática que deixei em aberto na Introdução e que esclareço nesta fase da obra. Quando afirmei que esta narrativa se coadunava com o modelo de Ícaro, com as devidas salvaguardas, tal deve-se ao facto do sentimento de satisfação do nosso protagonista nunca ser completo ou totalmente genuíno; a forma mais fidedigna de descobrir tal facto é no momento em que Teodoro, ao saber que irá receber todas estas riquezas, imaginar o que viria a fazer com elas e, contudo, culminar este exercício mental com desalento e culpa — a culpa está, portanto, presente nele desde o primeiro momento, simplesmente ele, devido à sua personalidade, opta por ignorá-la tanto quanto possível, ela, contudo, cresce como um cancro desenfreado até não mais poder ser ignorada. Um ponto que é também mencionado no capítulo III, é o Tédio experienciado pelo protagonista após a realização estafante de tantos banquetes e orgias, algo que merece melhor análise nas minhas Considerações Finais.

Nestas páginas cruciais também se encontra a fantasmagórica primeira aparição do mandarim, que irá ocorrer ao longo de todo o livro. Parece-me evidente que estas aparições do morto não têm nada de gratuito e no fundo se traduzem na materialização da culpa. Estas aparições tenebrosas surgem para assombrar definitivamente a paz de Teodoro e levam-no a um debate interior com a sua própria consciência, que desfaz as teses de relativização da morte e do valor da vida propostos pelo sombrio visitante que o convencera a cometer tal crime. O protagonista sente-se de tal forma intimidado que afirma categoricamente que é preciso “matar aquele morto”. 

Estas linhas fazem-me duvidar do real sentimento de culpa de Teodoro, uma vez que apenas o temor das aparições fantasmagóricas o levam a agir e a romper definitivamente com a sua embriaguez. Tal postura pode ser vista perfeitamente como uma mera tentativa de pacificação interior, exclusivamente egoísta, que em nada encontra um sentimento de genuína falta, quer para com Deus quer para com o mandarim assassinado. 

O que é facto é que o seu sentimento de culpa, tenha ele a real natureza que tiver, evolui para um segundo estágio, onde o protagonista se lembra do facto de a família do assassinado poder vir a passar mal devido àquele enorme montante ter sido desviado; num terceiro estágio irá encarar o mandarim como uma figura de extrema relevância que terá sido morta, chegando ao cúmulo de meditar que tinha arrasado todo um Império com aquele ato. Do ponto de vista filosófico além de encontrar aqui bem patente uma especulação relativamente ao valor da vida, encontro também a evidência de que o passado, ao contrário do que nos diz o senso comum, está muito longe de ser imutável, antes pelo contrário, é extremamente plástico e pode ser constantemente reescrito. A este respeito, recordemo-nos do facto de que o Diabo terá convencido Teodoro da irrelevância deste mandarim e vejamos, agora, o que ele afirma — é impressionante! 

Para terminar relativamente a este capítulo, resta-me dizer apenas que foram levadas a cabo várias tentativas falhadas de eliminar este fantasma, desde a realização de diversas missas até à construção de uma catedral; além disso, uma saída do país completamente falhada, uma vez que a culpa persegue aquele homem até aos lugares mais distantes; pelo caminho existiu uma breve recaída na indolência e na bestialização, que não teve qualquer efeito positivo, apenas serviu de exemplificação do estado de degradação da personagem; por fim, vem a ideia de partir para a China, desposar uma mulher da família do vitimado, de modo a restituir-lhe o seu ouro, bem como a celebração de rituais fúnebres com vista a acalmar o mandarim. 

Os quatro capítulos seguintes  (IV, V, VI e VII) passam-se na China, e revelam o inegável talento de Eça para a descrição de um mundo que somente conheceu por intermédio do testemunho de outros e nunca de forma direta. Nota-se nesta etapa da obra uma enorme contraposição entre a pobreza extrema dos habitantes daquele país e a magnanimidade, especialmente no campo arquitetónico. Nestes capítulos ocorrem algumas peripécias típicas destas exóticas aventuras, as quais irei elencar com brevidade, são, contudo, de menor importância para a compreensão das problemáticas centrais do texto, e que, no fundo, se traduzem na confirmação do fracasso da tentativa de redenção de Teodoro. 

Logo no princípio da sua estadia, o nosso narrador-protagonista apercebe-se da impossibilidade da execução do seu plano inicial. As regras do Império do Meio são rígidas e jamais ele poderia desposar uma mulher da família de Ti Chin-Fu, nem o Imperador lhe concederia as honras. Um outro problema, que acrescenta algo de cómico a toda esta narrativa, é o facto de Teodoro apenas conhecer a palavra “chá” na língua deste país original — tais limitações linguísticas certamente também não eram abonatórias no empreendimento a que este se propunha. 

Aqui ele irá travar amizade com o General Camilloff, que lhe chamará à razão nas várias e vãs tentativas de resolução do problema que o leva ali: conceder o dinheiro diretamente aos burocratas asiáticos não levaria a qualquer tipo de conforto das misérias populares, visto que seria absorvido pela “orgia asiática”, uma nítida observação crítica a um sistema corrupto, como o protagonista, do qual não se escapam nenhuns princípios morais com vida; por outro turno, entregar alimento diretamente ao povo pobre seria igualmente negativo, uma vez que atrairia o ódio por parte dos responsáveis políticos que viriam nesta atitude uma ameaça ao seu poder. A única solução é encontrar a família do mandarim e restituir-lhe diretamente a fortuna. 

Um ponto a que daria alguma importância nesta fase da história é o enamoramento de Teodoro pela esposa do seu principal companheiro na China, Camilloff, cujo nome é Vladimira. Este triângulo amoroso é merecedor de alguma atenção, uma vez que, embora seja evidente uma traição, que o protagonista exerce para com o seu principal protetor nesta fase da história, existe para com Vladimira um tratamento diferente do que era tido para com as mulheres que a antecederam: não de mero consumo, mas com vestígios de algum romantismo mais idealista, aparentemente destruído aquando do processo de queda. Contudo, aquilo que poderia ser entendido como uma derradeira esperança de felicidade culmina numa despedida, uma vez que Teodoro tem que partir para Tien-Hó para cumprir a sua missão. Separando-se, então, da mulher que domina o seu coração nesse momento, maldiz o mandarim, que no fundo, obriga a este desenlace (mais uma vez, aqui encontro vestígios de que o sentimento de culpa de Teodoro não é genuíno e sim meramente interesseiro).

Ao chegar a esta terra, instalam-se na estalagem da Consolação Terrestre. Ali acontece uma súbita reviravolta nos acontecimentos, quando Teodoro se apercebe de que fora traído pelos burocratas orientais, que tinham espalhado os rumores da sua fortuna. Sofre então um violento ataque a que nem o ouro abundantemente atirado à turba põe fim, a que se seguem as seguintes peripécias: Teodoro menciona diretamente Deus, apelando ao seu auxílio; acorda de um desmaio num claustro católico, pois tinha sido descoberto por dois padres lazaristas. A presença destas figuras traz-lhe a sensação de casa. Penetrado deste estado de espírito, pretende voltar, abandonar a China, maldizendo o povo que ele quis restituir e que tão mal o tratou. Tem, de resto, a firme crença de que o fantasma do velho mandarim ficará sereno com este derradeiro esforço e pede por fim ao seu amigo que devolva o ouro à família. Como desde o início enunciei, tal tentativa viria a revelar-se um tremendo fracasso: refere Camilloff, numa carta que o protagonista havia dele recebido, a presença de uma confusão entre famílias com o mesmo nome da do mandarim. Diante deste novo aspecto, a restituição tornar-se cada vez mais impossível e a narrativa faz-nos mergulhar, então, no verdadeiro espírito da desilusão. O ouro tornara-se, pois, um peso insuportável, como correntes impossíveis de romper ou um veneno mortal e eficaz. No regresso a Portugal, Teodoro reencontra a assombração do mandarim… fracassou! 

No capítulo final, e vendo-se perseguido pela figura do fantasma do mandarim, Teodoro opta por abandonar a vida faustosa que tinha, retomando o seu antigo quarto na pensão da Dona Augusta e o ofício de amanuense. Nesta fase, é muito cómica a mudança de postura da sociedade lisboeta em relação a ele. Se outrora Teodoro fora aclamado das formas mais excessivas, agora era amaldiçoado e vilipendiado. Há, então, um derradeiro regresso ao luxo do passado, quando Teodoro se farta do ódio popular e novamente os lisboetas se curvam a seus pés. É patética a forma como é descrita aqui a humanidade, estendendo-se em certo sentido toda esta corrupção interior à própria natureza humana, a um tal ponto que Teodoro maldiz não só a criação como o próprio Criador e se envolve no derradeiro niilismo de querer ser nada. 

Não esqueçamos a sua derradeira tentativa de salvação, em que avista e interpela este Diabo Contemporâneo, pedindo-lhe que ressuscite o mandarim e lhe devolva os milhões, e que, de resto, restitua a paz da sua consciência, ao que obtém esta resposta: 

“ – Não pode ser, meu prezado senhor, não pode ser… ” 

A despedida que Teodoro nos oferece é triste e fatídica, numa clara referência a um dos mais célebres poemas de Baudelaire na sua obra Les Fleurs Du Mal: o ouro será destinado a quem o amaldiçoou, e fica a provocação ao leitor, que se poderá sentir como os semideuses incólumes e triunfantes à vileza humana do Poema em Linha Reta de Álvaro de Campos. Mas será mesmo assim, ou seremos nós todos, em certa medida, imperfeitos, mesquinhos, vis, enfim, Teodoros… ?!: 

“Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. Nele lego os meus milhões ao Demónio; pertencem-lhe; ele que os reclame e que os reparta… E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: «Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!» E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão! “

Considerações Finais

A minha leitura desta obra revelou-se uma surpresa na medida em que não esperava encontrar tantas questões filosóficas da maior pertinência, às quais fui fazendo referência ao longo da minha exposição deste enredo. Eça vai bem além da mera análise dos costumes sociais, tipo de temática pelo qual é comummente mais conhecido e é notório que aqui a sua exposição alcança contornos metafísicos e éticos, demonstrando a forma como a existência de uma realidade transcendente modifica e muito o comportamento de um indivíduo. 

Podemos encarar esta narrativa como uma demonstração de loucura por parte do protagonista, que habita um mundo sem céu nem inferno, sem deuses, e, como tal, vive numa culpa vã e no sofrimento pelo mero delírio e ilusão. Contudo, tal não me parece o propósito desta narrativa, que se inclina bem mais para a demonstração da existência de uma efetiva existência no âmbito moral, inerente à condição humana, aqui sustentada pela perspetiva cristã que posso associar sobretudo às conceções de Santo Agostinho, na seguinte medida: o protagonista procura substituir a sua falta ontológica de Deus com o mundo, o que se revela um enorme fracasso e culmina no esgotar de possibilidades válidas, e no tédio — a que prometi fazer referência —, também ele visto, por exemplo, como o principal monstro no poema de Baudelaire, que emergiu no fim da obra em apreço. De resto, a perda de inocência do protagonista através do ouro, bem como a busca pelo máximo hedonismo, e a visão do outro como mero objeto de consumo, recordam-me bastante O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, onde estes fenómenos estão muito bem descritos: era justamente este autor que afirmava que existem apenas duas tragédias no mundo: uma é não conseguir o que se quer, outra coisa é conseguir. Esta última tragédia é a que Teodoro experiencia ao longo de toda a história, o que demonstra como as inclinações humanas podem conduzir à tragédia. 

É esse retrato negativo do Homem que também fica bastante visível, uma das temáticas exploradas ao longo da história da literatura em especial na tradição da Sátira Menipeia: ali o Homem é visto como um pretenso ser racional que falhou e ficou a meio caminho — um ser imperfeito, incompleto. A questão de o homicídio à distância ter menor importância na obra parece-me aqui respondida: sendo o ato de matar um crime eticamente condenável, é indiferente se este é levado a cabo por uma campainha ou por uma espada — de facto ao longo da História temos assistido tendencialmente a um maior afastamento do assassino da sua vítima, nomeadamente na prática da guerra, com armas que matam a distâncias cada vez maiores. Não me parece que de facto tal distância reduza um centímetro a gravidade do ato que se pratica, podendo até dar-lhe nuances até mais pérfidas e um maior sinal de cobardia. No fundo, creio que essa pode ter sido uma das razões que levou ao insucesso de Teodoro na sua viagem até ao interior da sua consciência; o seu arrependimento e culpa sempre se pautaram por contornos egoístas, nunca por um verdadeiro interesse pelo ético; a sua vivência sempre se ficou pelo estágio estético que Kierkegaard concebeu; e, no fundo ,a gravidade da morte apenas pode ser encarada quando é posta de lado a sua relativização, sobretudo quando se constata que não é possível voltar atrás, quando termina a especulação em torno do valor de uma vida por este ou aquele motivo e fica apenas a evidência de que algo irrecuperável foi destruído. 

Bibliografia

QUEIRÓS, Eça de. O Mandarim. (Edição crítica de Beatriz Berrini). Lisboa: Imprensa

Nacional – Casa da Moeda, 1992. (Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós)

BAUDELAIRE, Charles. Escritos Íntimos (Clássicos de Bolso) . Lisboa: Editorial Estampa, 1994