O Mecanismo de Anticítera

Provavelmente será um aparelho extraterrestre. É claramente uma máquina do futuro deixada no passado por um viajante no tempo. Estas são algumas das teorias que povoam os fóruns online acerca do mecanismo Anticítera. Trata-se de um artefacto do séc. I a.C., encontrado no fundo do mar por caçadores de esponjas, com capacidade para fazer inúmeras previsões como por exemplo a posição dos astros ou as datas dos jogos pan-helénicos. Vamos conhecer a sua história, tal como as várias tentativas de reprodução e homenagem, como a que foi feita pela Hublot. Texto de Nuno Lopes Margalha. Revisão de João N.S. Almeida. Publicado originalmente no site do Instituto português de Relojoaria.

UM RELÓGIO NO FUNDO DO MAR

As esponjas de banho podem ser sintéticas mas também existem esponjas naturais, que são na verdade animais. Estas esponjas são recolhidas por mergulhadores especializados.

Em 1900, o Capitão Dimitrios Kondos, e a sua tripulação de mergulhadores de esponjas, percorreram o mar Egeu em busca de pesqueiros ao largo do norte de África. Enquanto aguardavam ventos favoráveis, lançaram a âncora junto à ilha grega de Anticítera. Já que estavam parados, decidiram mergulhar com os seus fatos especiais de lona com capacetes de cobre. O mergulhador Elias Stadiatis desceu a 45 metros de profundidade mas rapidamente puxou a corda para sinalizar que precisava de ser puxado para cima. Na altura a composição do gás usado para respiração subaquática incluía nitrogénio, um elemento tóxico capaz de provocar alucinações. Quando Elias chegou à superfície, os seus colegas julgaram que a história que contava se devia mais ao nitrogénio do que à própria realidade. Pela sua descrição tinha acabado de ver cadáveres de pessoas e cavalos, ao longo de uma vasta área, no fundo do mar. Ainda assim, o Capitão Kondos vestiu o seu fato de mergulho e foi confirmar o que estava realmente lá em baixo. Passado pouco tempo, regressou com um braço de uma estátua de bronze. Estávamos em 1900, a disciplina da arqueologia ainda não era assim tão relevante e a tripulação do capitão Kondos tinha de trabalhar; por essa razão, abandonaram os destroços e foram apanhar esponjas. No regresso, resolveram fazer mais uns mergulhos. Recuperaram então vários artefactos que, mais tarde, mostraram às autoridades de Atenas. Perante esta descoberta incrível foram imediatamente enviados vários navios da marinha Helénica para o local. Junto com o Ministério da Educação Grego e a Marinha Real Helénica, os mergulhadores de esponjas colaboraram no salvamento de um dos maiores tesouros subaquáticos da história. Em meados de 1901, haviam sido recuperadas estátuas de bronze, e trinta e seis esculturas de mármore, incluindo Hércules, Ulisses, Diomedes, Hermes, Apolo, três estátuas de mármore de cavalos, uma lira de bronze e várias peças de vidro. Muitos outros artefatos pequenos e comuns também foram encontrados, e toda a montagem foi levada para o Museu Arqueológico Nacional de Atenas. No entanto, a morte do mergulhador Giorgos Kritikos e a paralisia de outros dois devido a problemas na descompressão puseram fim ao trabalho no local no verão de 1901.

O PRIMEIRO RELÓGIO MECÂNICO (OU TALVEZ UM ASTROLÁBIO)

Em 17 de maio de 1902, o arqueólogo Valérios Stais fez a descoberta mais célebre de todas, enquanto estudava os artefatos no Museu Arqueológico Nacional. Notou que uma peça de bronze severamente corroída tinha uma roda de engrenagens embutida e inscrições legíveis em grego. O objecto viria a ser conhecido como o Mecanismo Anticítera. Originalmente pensou-se que seria uma das primeiras formas de um relógio mecanizado ou talvez um astrolábio. Por vezes é referido como sendo o computador analógico mais antigo do mundo.

JACQUES-YVES COUSTEAU

Os destroços permaneceram intocados até 1953, aquando da visita do oficial e explorador naval francês Jacques-Yves Cousteau, com o propósito de redefinir o local. Cousteau chegou com uma equipa completa no Verão e, no Outono de 1976, a convite do governo grego, sob a direção do arqueólogo Dr. Lázaros Kolonas, a equipa recuperou quase 300 artefatos, incluindo frascos de cerâmica, moedas de bronze e prata, peças de esculturas de bronze e mármore, estatuetas de bronze, várias peças de jóias de ouro e até restos humanos da tripulação e passageiros. Restos de tábuas do casco mostraram que o navio era feito de ulmeiro, uma madeira frequentemente usada pelos romanos nos seus navios.

A DATA

Em 1964, uma amostra da tábua do casco foi datada por carbono e indicou a data de 220 a.C ± 43 anos. Outras evidências para uma data de naufrágio do início do primeiro século a.C. surgiram em 1974, quando o professor da Universidade de Yale, Derek de Solla Price, publicou sua interpretação do mecanismo Anticítera. Argumentou então que o objeto era um “computador de calendário”, e a partir de configurações de engrenagens e inscrições nos rostos do mecanismo, concluiu que o mecanismo foi feito por volta de 87 a.C. e perdido apenas alguns anos depois.

O MECANISMO

O mecanismo original está exposto na coleção de bronze do Museu Arqueológico Nacional de Atenas. “Este não deverá ser o único exemplar”, como afirma Martin Allen, baseando-se no facto de em todo o mecanismo não existir um erro, um furo desnecessário ou um corte fora do sítio. Allen sugere que pelo facto do mecanismo ser de bronze, um metal com valor, muitos dos anteriores mecanismos podem ter sido fundidos e reutilizados. Alguns autores sugerem que poderá ter sido uma evolução do planetário construído por Arquimedes, que viveu entre 287 a.C. e 212 a.C. O Mecanismo Anticítera é constituído por 27 engrenagens, todas de bronze. O objectivo seria indicar as órbitas de vários astros. Por terem sido encontrados fragmentos de madeira no mecanismo acredita-se que seria protegido por uma caixa de madeira. Ou seja trata-se de um aparelho constituído por rodas dentadas de bronze, numa caixa de madeira e pensa-se que teria um grande mostrador circular com ponteiros.

Cícero, no século I a.C., refere um aparelho “recém-construído por Posidónio, que, a cada revolução reproduz os mesmos movimentos do Sol, da Lua e dos cinco planetas”. Aparelhos como estes são referidos várias vezes na época. A maior roda tem 1450 mm de diâmetro e 223 dentes. O cientista Allan George Bromley e o relojoeiro Frank Percival criaram a primeira reprodução do mecanismo. Entretanto outras foram feitas.

Existe mesmo um artesão na rede social Instagram que faz reproduções por encomenda: @antikythera_man.

O FUNCIONAMENTO

Uma alavanca lateral seria responsável por rodar o mecanismo em ambos os sentidos. As rodagens interiores moviam pelo menos sete ponteiros com diferentes velocidades que indicavam a data de aparecimento do Sol, da Lua e de cada um dos cinco planetas visíveis a olho nu – Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno.

Ainda na parte da frente existiam duas escalas, uma que mostrava os signos do zodíaco e outra que mostrava um calendário de 365 dias consonante com o calendário solar egípcio. Na parte de trás existiriam dois mostradores com um ponteiro cada e uma escala em espiral. Um deles apresentava o ciclo metónico, que indicava os ciclos da Lua e do Sol durante um período de 19 anos. O segundo mostrador indicava as datas dos eclipses lunares e solares.

A ORIGEM

Alguns historiadores esclarecem que o conhecimento grego acerca desta construção mecânica foi bastante influenciado pelos árabes. Erich von Däniken por seu lado alega que o aparelho veio naturalmente de uma nave extraterrestre. Os historiadores discordam. Existem algumas teorias que apontam para a hipótese deste ter sido um mecanismo construído pelo filósofo Posidénio que tinha uma oficina em Rodes. De acordo com Cícero, Posidónio fez um modelo semelhante no séc. I a.C. A tradição de fazer tais mecanismos pode mesmo ser muito mais antiga. Cícero escreveu sobre um dispositivo de bronze feito por Arquimedes no século III a.C.. James Evans, um historiador de astronomia na Universidade de Puget Sound em Tacoma, Washington, acha que o ciclo de eclipses representado é de origem babilónica e começa em 205 a.C. Talvez o autor tenha sito Hipparchus, um astrónomo de Rodes da época, que elaborou os cálculos matemáticos que permitiram a construção do dispositivo. Hipparchus é conhecido por ter relacionado as previsões baseadas na aritmética dos babilónios com as teorias geométricas favorecidas pelos gregos. Independentemente da sua origem específica, o mecanismo de Anticítera prova que os gregos antigos usavam composições complexas de rodas cortadas com precisão para representar o que havia de mais recente no conhecimento científico. É também uma boa forma de perceber como viam o universo. Eles acreditavam que a natureza funcionava de acordo com regras predefinidas, como uma máquina – uma abordagem que forma a base das nossas visões científicas modernas.

1400 ANOS MAIS TARDE: PRIMEIROS MECANISMOS COM ENGRENAGENS

A necessidade de saber as horas teve início na Europa por volta do final do séc. XIII, foi apenas a partir desse período que, lentamente, se começou a desenvolver a mecânica das engrenagens e rodas dentadas. Inicialmente os relógios não tinham ponteiros, estavam presentes apenas nas catedrais mais importantes, eram peças muito grandes e muito pouco precisas.

Reprodução do Astrário de Giovanni Dondi dell’Orologio

Os primeiros relógios com ponteiros indicavam apenas as horas, a falta de precisão e de necessidade para os costumes da época não justificavam a existência de divisões temporais inferiores às da hora. Entre 1348 e 1364 Giovanni Dondi dell’Orologio construiu um aparelho capaz de exibir a posição do Sol, da Lua e dos 5 planetas visíveis. Esta máquina tinha 107 rodas dentadas e cerca de um metro de altura. Acima de tudo, o que a distingue do mecanismo Anticítera, para além dos cerca de 1400 anos, é o facto de ter um balanço e um peso, o que permitia que trabalhasse de forma autónoma.

HUBLOT MASTER PIECES E A HOMENAGEM AO MECANISMO ANTICÍTERA

MP-04 Antikythera Sunmoon

Como homenagem à arte e engenho humano a Hublot criou a série Master Pieces, revelada pela primeira vez em janeiro de 2011, com a introdução do MP-01. A quarta obra-prima da Hublot, MP-04 (904.NX.4101.RX), trata-se de uma homenagem ao Mecanismo de Anticítera. A pedido de Jean-Claude Biver e sob a direcção de Mathias Buttet, a Hublot conseguiu reduzir um mecanismo de 1 m de altura e 20 cm de espessura para um de 49.90 mm x 49.05 mm x 20.83 mm, inicialmente, e para um de

35.2 mm x 37 mm x 12.43 mm posteriormente, que se pode usar no pulso. A versão inicial, MP04 contou com apenas 4 peças e não foi comecializada. Uma está em exibição no Musée des Arts et Métiers em Paris, a segunda entrou oficialmente na coleção do Museu Arqueológico de Atenas, a terceira foi colocada em leilão para arrecadar fundos para o museu conservar o Mecanismo Anticítera. Finalmente, o quarto e último será guardado pela Hublot no seu museu como uma lembrança desta grande aventura. Em 2013 foi lançada uma versão menos complicada, o MP-08 Antikythera SunMoon.

MP-08 ANTIKYTHERA SUNMOON

MP-08 ANTIKYTHERA SUNMOON. Movimento HUB9008

Esta homenagem ao Mecanismo de Anticítera inclui um calendário solar e um calendário lunar, bem como uma indicação da posição sideral do Sol e da Lua. O que significa que, para além de poder ler a hora, o utilizador deste relógio pode verificar, para um determinado dia, e com extrema precisão, a fase da Lua ou, mais especificamente, a sua forma no céu, o nome da constelação por trás dela, e o tempo necessário para a Lua passar por esta constelação. Para o mesmo dia, também mostra a constelação localizada atrás do Sol e o tempo necessário para o Sol passar por ela. A peça é completada por um turbilhão flutuante. Foram comercializadas 20 unidades em 2013. O MP-08 devolveu o merecido protagonismo a esta homenagem da Hublot, pois o lançamento do MP-04 ficou abafado pelo espampanante MP-05 LaFerrari que se seguiu de imediato.

Notas:

Lista de exposições do Mecanismo de Anticítera

Simulador online

Versão em lego

Versão em lego

Artigos na revista Nature sobre o Mecanismo de Anticítera

Documentário online

Artigos na revista Nature sobre o Mecanismo de Anticítera

Réplica de bronze 3D desenhos de fabricação de engenharia e manual de operação

Livro recomendado – A Portable Cosmos