O “Ricardo A. Pereira” “tem muita graça”, é “muito culto” e “muito inteligente”

Desde o advento desta figura no entretenimento nacional, há mais de vinte anos, que esta ganhou notoriedade, num país de campónios, por, além da qualidade para a comédia, ser supostamente uma figura de gabarito intelectual superior à média, fino conhecedor da alta cultura, e dono de uma extraordinária inteligência capaz de produzir argumentos fora do alcance do português comum. Uma espécie de Marcelo Rebelo de Sousa dos palhaços, portanto. Nada disto poderia estar mais longe da verdade e, com toda a probabilidade, é uma quase completa efabulação. Vejamos ponto por ponto.

O talento, artesão e comercial, da dita personagem para a produção de programas de comédia adequados ao seu tempo é inegável. O seu historial de ficção televisiva é de irrepreensível sucesso e, alguns dirão, qualidade certamente superior à mediocridade vigente. Não quer isso dizer porém que se trate de um comediante de talento enquanto comediante, mas somente que as contigências históricas lhe proporcionaram a feliz possibilidade de ser representante de uma nova geração de gostos humorísticos. Nesse sentido, o seu papel, e o da pandilha que em tempos o acompanhava, antes do mesmo se ter independentizado — por ser, evidentemente, de acordo com a visão geral do vulgo, uma pessoa de enorme valor e talento, muitíssimo superior aos outros — é um papel de inquestionável domínio e importância. Note-se, no entanto, que sempre foi observável, por algumas pessoas não facilmente rendíveis às modas, que qualquer grupo de amigos imersos em boa disposição consegue emitir umas larachas de qualidade cuja densidade ficcional e ousadia metafórica pode ser perfeitamente idêntica à deste comediante ou de muitos outros da mesma geração. Aliás, consegue até dizer-se que muitos grupos de amigos compostos por pessoas comuns conseguem desenvolvimento humorístico bastante superior com a maior das facilidades. Já o mesmo não poderia ser dito de, por exemplo, os actores clássicos da revista à portuguesa: nenhum zé da esquina conseguiria suplantar Vasco Santana, nem nenhuma maria das iscas produziria dichotes tão robustos como os de Laura Alves. Nisto, o comediante aqui referido é claramente diferente e pertence a uma cultura mediática de época em que o medíocre é aceite como excelente e extraordinário.

De resto, a sua vaga inclinação para a literatura — ou seja, o rapaz lê uns livros, e escreveu outros tantos, talvez mais do que aqueles que leu — atestou-o também, neste país que ainda julga que é analfabeto, como uma sumidade da cultura, convidado para apresentar obras, escrever prefácios, conferenciar e autorar variadas paráfrases de banalidades da área dos estudos literários, passando isso como grande bagagem. Não é. Tendo aliás sido colega de alguns dos nossos autores nesta publicação no Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras de Lisboa, é evidente que se trata de um eterno puto, comum estudante de humanidades em Portugal, e tão culto quanto o bandalho médio que estuda e, nalguns casos, até ensina, naquela faculdade. Efectivamente alguns professores de literatura também não passam da mediocridade, e isso não tem de ter problema nenhum: nem todos nasceram para serem génios ou extraordinários de algum modo. O que não é admissível, ou melhor, é ridículo, é recolherem admiração do comum burgesso como se se tratassem de figuras admiráveis nessas áreas e não apenas, no caso deste em particular, como meros, apesar de competentes, profissionais da comédia.

Além disso, é da esquerda política, o que só fica bem, e é compatível com o panorama ideológico dominante em que a classe dos intelectuais do entretenimento, covarde, seguidista e burguesa, se insere hoje — desde os estúdios de Hollywood até ao Bairro Alto e ao Lux. Possivelmente, se o dito rapaz fosse de direita ou, simplesmente — como Herman José — não fosse uma pessoa política — se calhar não teria tanta graça, não seria tão amestrável, não serviria tão simpaticamente para andar ao colo dessa classe urbana contemporânea, função que tem efectuado quase irrepreensivelmente desde há vinte anos. Curiosamente é também muito apreciado pelo actual Presidente da República, e os paralelos talvez sejam mais que muitos: essa é uma figura que, enquanto comentador político, emitia também e apenas mediocridades banais, tendo impressionado o país com um tom professoral e uma certa pedalada acima da média, ganhou uma presidência que agora muitos, e largamente tardiamente, começam a reconhecer como um espectáculo não muito dignificante. De modo talvez assim análogo, o comediante, depois de décadas aproximando-se do humor de puto esperto amamentado pela dita classe, a fazer as tais piadas que os grupos de amigos com uns copos também faziam, só que em formato televisivo sketcheiro, foi ganhando também os seus galões no número de comédia situacional televisiva e agora aventura-se nas águas do que afinal talvez sempre lhe tenham interessado — e que, frequentemente, é a confissão da sentença de morte criativa do humorista: o comentário e a intervenção política.

Isto, no fundo, é aquilo que possivelmente tinha estado sempre latente. Como é então, na actualidade, o humorista visto pela população urbana que na infância e adolescência o idolatrava? Na verdade, há muito que não se ouve descrevê-lo como “esse tipo é muito engraçado”, mas ouve-se antes alguns dinossauros vociferarem que “é um génio” na recordação deles, etc., justificando que já não tem graça mas recusando-se a retirarem-no do pedestal em que se acostumaram a vê-lo. Claramente a alegação agora é outra — e sabemos o quanto terminologia como “o génio” é usada com certa vulgaridade, enquanto que “o engraçado” com certa liberalidade. Paralelamente, na fase de decadência cómica de Herman José, este optou pelo mote de “vou apresentar concursos”, talk shows e o que lhe apetecesse. Contava, na altura, com um séquito de admiradores autómatos, sendo que, nessa altura já avançada da sua carreira, a maioria da população achava que Herman José tinha graça porque sim ou então quando estava perante Herman José achava que estava na hora de ter graça.

É isto então, de modo idêntico, que se passa hoje com o comediante referido, sendo que no entanto optou por um tipo de decadência diferente, correspondente ao pior que a sua própria geração tem para oferecer: o sarcasmo e a política, herdeiro do tom horripilantemente condescendente, provinciano e ignorante de Jon Stewart no seu marcante Daily Show, espectáculo de preguiça intelectual e humorística lamentável, com duas décadas a ensinar doutrina à geração urbana intelectual do milénio e a explicar como descartar argumentos alheios aos progressismos da moda usando apenas sarcasmo e punchlines de adolescente charrado.

Esse estado de espírito não é o estado de espírito do humorista tout court mas sim uma rendição, capitalista, servilista e covarde, ao modo mental não-comprometido, pós-moderno, tão sintomático da geração X a que pertence, em que, burguesamente, se arredonda o cu no conforto da poltrona das muito bem-sucedidas civilizações ocidentais, as mais materialmente prósperas do mundo, e, ao mesmo tempo — tal como Radiohead ou algumas personagens de Mike Leigh — criaturas sem qualquer herança cultura de relevo ou conteúdo mental suficientemente complexo são convencidas de que têm jeito para algo mais que serem os heróis do café lá da zona (café urbano e “intelectual” no sentido em que qualquer puto estúpido vai para a faculdade e se transforma num intelectual) e então entram num modo urbano-depressivo sardónico, derivado também de terem sido horrivelmente ensinados a achar que a culpa de tudo era uma culpa colectiva — lamentável estado psicológico imaturo, derivado de não saberem lidar com o peso individual, e modo de ser esse que se expande para o apetite pela política frequentemente.

Não era este o caso com Herman José: tal figura dedicou-se, na fase mediana e agora muito mais tardia da sua carreira, ao entretenimento puro e duro, e está-se nas tintas para politica e futebol, vendo-as como migalhas que o povo torpe aprecia comer do chão. Curiosamente o humorista abordado neste artigo adora essas duas dimensões da cultura. Isto diz muito. Resta referir que o trabalho requerido para um programa de comédia sobre politica é completamente preguiçoso: basta fazer umas montagens torpes com políticos a falar, interrompê-las quando entendem, e juntar umas piadolas a seguir, com voz esganiçada. Era possível fazer isto com padres, com espectadores de futebol (já existiu uma produção sobre isto: a Liga dos Últimos), com activistas dos direitos humanos, com personalidades do entretenimento (era muito esse o interesse de Herman José), com pobres da Cova da Moura, com ricos de Cascais, com pescadores. O comediante em causa entende fazê-lo com políticos por uma simples razão: porque compatibiliza o seu interesse adolescente e de menoridade mental com a facilidade logística que tais caricaturas requerem.

Mas tudo isto reflecte e é a consequência natural daquilo que foi sempre a sua comédia, que também, é, na tradição burguesa e de pretensão intelectual, apenas gozação observacional, não tendo nada de paródia mímica, de farsa gramática, quase nada disso. Foi sempre apenas o invólucro onde uma geração com imaginação, mas com um certo tipo de castração mental e comportamental — a vidinha custa muito —, projectava as suas fantasias de liberdade humorística e de criação com associações livres, narrativas do absurdo e observações sumárias, aquelas a que eles próprios, na sua limitação mental e social, não conseguiam suficientemente dar corpo sozinhos. O humorista foi, assim, preenchendo esse lugar — e certamente num nível superior à qualidade vigente de outros comediantes da sua ou de mais tardias gerações, uma qualidade ainda pior que a sua própria mediocridade, de pessoas sem qualquer talento relevante que foram para a comédia como poderiam ter ido para engenharia ou para enfermagem. A comédia dele, apesar de superior em grau, nunca foi diferente dessa em espécie, e, reduzida a termos simples, nunca passou da larachada de um miúdo pós-moderno perdido na vergonha judaico-cristã do falhanço da ideologia, e, preso numa adolescência perpétua, inicialmente afogando-se num mar de sarcasmo, perdendo a força e desembocando, irremediavelmente, no papel do comentador e activista político a fingir que é comediante — e não é.

Hoje restam só essas larachas intelectualmente posicionadas — e, já que todo o urbano adulto contemporâneo se encontra, para seu infortúnio, irremediavelmente comprometido com política e com ideologia, essas se tornam quase todas também dependentes desse substância, e assim se explica o decaimento no sub-género pouco frutífero e pouco duradouro do comentário político com graçolas à mistura. É a Revista Maria dos intelectuais frustrados — e, de facto, como o nível intelectual é suposto ter uma densidade e uma qualidade correspondentes, ao contrário do popular, confessamos que muitos de nós acabarão por preferir a Revista Maria.

Por último, uma declaração de interesses (de desinteresses): há mais de vinte anos que programas dos engraçados a comentar política vicejam na televisão generalista e nos canais noticiosos do contexto português: o Eixo do Mal, o Governo Sombra, as Irritações, os vários programas do referido humorista, etc. Confessamos assim que, no nosso caso, o somatório de tempo assistido de todos esses programas juntos não ultrapassará os trinta segundos no total. Ao longo de vinte anos. Ou seja, ou entre nós temos o hábito de assistir pouco a televisão, ou esses programas são de facto muito maus. Admitimos que a segunda hipótese é muito mais provável.