On a Blue Note

Texto de Sofia Alexandra Carvalho. Revisão de João N.S. Almeida.

Blue Note Records é sinónimo de um desvio musical prodigioso e singular: uma “plataforma de expressão musical”, como defendido por Herbie Hancock no documentário Blue Note Records: Beyond the Notes (2018). Fundada em 1939, a editora resultou de uma paixão de dois não-instrumentistas pelo “hard bop” jazz (mistura híbrida de jazz, bebop, soul, blues, gospel, avante-guarde e “free style” que, quebrando todas as regras, traz consigo uma revolução, uma nova semântica musical): Alfred Lion (1908-1987) e Francis Wolff (1907-1971).

Este projecto editorial, que vinga até ao presente, não só marcou e catapultou diferentes gerações de músicos (Thelonious Monk; Fats Navarro; Sidney Bechet; Bud Powell; Howard McGhee; Wynton Kelly; Clifford Brown; John Coltrane; Milt Jackson; Miles Davis; Wayne Shorter; Herbie Hancock, Freddie Hubbard, mencionando apenas as figuras mais sonantes), como também teve uma equipa notável, que funcionava à sua maneira: o único modo de deixar uma marca indelével no mundo. Alfred Lion admite ter sido a sua mãe a influenciá-lo, ainda que involuntariamente, ao trazer para casa, em Berlim de 1926, um disco que o impressionou, sem saber ainda que era jazz ou o que era jazz. Francis, por sua vez, confessa o gosto pelo estilo musical, mas sem o compreender. Uma das notas do seu carácter, transmitida por diferentes músicos, era dançar ao som do “take” certo, se não dançasse, o take não era o final. Foi assim que, nos anos 30, estes dois amigos de infância, Alfred Lion e Francis Wolff, fugindo da perseguição aos judeus na Alemanha nazi, se tornaram os fundadores da Blue Note Records em Nova Iorque. O que os moveu foi a impressão tremenda que este estilo musical lhes gravava no espírito: a editora nasce da necessidade íntima destes dois amigos de ouvir músicas, que ainda não existiam. Sem nunca terem gravado discos, e movidos pela mesma paixão, decidiram iniciar uma das belas aventuras musicais do século XX: as sessões de gravação eram descontraídas, sem pressões editoriais de sucesso ou vendas (basta recuperar a resistência de outras editoras às edições de Monk, com a sua prodigiosa “Round Midnight”, tendo sido defendido por Alfred Lion durante cinco anos, sem sucesso), e a confiança depositada nos músicos era absoluta. As discussões artísticas entre os dois fundadores eram intensas e profícuas. As decisões editoriais saíam dessa interacção de debate e confronto, contribuindo para a alta qualidade das suas edições. Interessava-lhes, sobretudo, a criação de formas particulares, saída directamente da liberdade criativa de cada artista.

Inovadora e revolucionária, esta aventura editorial contou ainda com duas colaborações axiais: a de Reid Miles (1927-1993), o designer ímpar que marcou a imagem da editora nas décadas de 1950 e 1960, contribuindo para o impacto visual dos álbuns através de uma criação distinta em cada álbum, quer fosse através da criação tipográfica, quer do corte e colagem das fotografias de Francis Wolff, sem nunca deixar de fortalecer a atmosfera estética dos discos da Blue Note Records (vide https://www.bluenote.com/timeline); e a de Rudy Van Gelder (1924-2016), engenheiro de som, que estimava a liberdade, a improvisação e o reconhecimento de músicos individuais. Aliás, de 1953 a 1959, a Blue Note gravou na sala de estar da casa dos pais de Van Gelder, em Nova Jersey, e só em 1959 foi criado um estúdio, em Englewood Cliffs, Nova Jersey: local de gravação de mais de 400 álbuns, com a chancela da Blue Note. Este estúdio ou templo, inspirado no estilo de Frank Lloyd Wright, foi aliás encomendado a um dos seus alunos.

Contrariando, no entanto, o aspecto comercial do fracasso, Blue Note obteve dois grandes êxitos nos anos 60: o The Sidewinder de Lee Morgan (1964) e Song For My Father de Horace Silver (1965). Os editores ficariam sem estes discos num prazo surpreendente de 48 horas. Estes êxitos culminaram com a compra da editora pela Liberty Records, muito direccionada para planos de vendas, o que contribuiu para a saída de Alfred Lion no Verão de 1967, tendo Francis Wolff ficado responsável administrativo até 1971, ano da sua morte. A actividade editorial parou entre 1979 e 1984, tendo sido relançada pela EMI/Capitol Group, sob a égide de Bruce Lundvall (1935-2015), presidente da Blue Note Records de 1984 até 2011. Uma nova era despontava, distinta da inicial, mas tendo sempre na mira o padrão de qualidade dos seus iniciadores e as lições dos seus mentores.

Tinha sido criada uma comunidade de músicos, sem perder a força individual que movia cada um deles. Blue Note Records torna-se o emblema audaz, reverencial e referencial da arte e do artista deste estilo musical. Colaboração e liberdade criativas são o ex-libris deste emblema.