Sobre Alves e Cª, de Eça de Queirós: A Ira Aplacada

Um breve ensaio sobre o romance Alves e C.ª, de Eça de Queirós, publicado postumamente.Texto de Cristiano Jesus. Revisão de João N.S. Almeida. Imagem: rua dos Douradores, em Lisboa; foto de Sérgio dias, aqui.

“que coisa prudente é a prudência”

Godofredo Alves

“Decidiu logo bater-se com o Machado, num duelo de morte, e a ela [Ludovina], mandá-la para casa do pai” (Queirós, 1975, p. 39). Este é um dos primeiros pensamentos que Godofredo Alves, homem de negócios da baixa lisboeta, considera, ainda com o sangue a ferver, depois ter encontrado, em flagrante delito, o sócio da sua firma Alves & C.ª com o braço em torno da sua esposa. Se em primeira instância nos parece que Godofredo está determinado a levar avante um acto trágico, rapidamente encontraremos o seu contrário. O desenrolar dos dias não encherá de certezas aquele homem de família ferido no seu orgulho, mas antes de permanentes dúvidas que o assolarão e demoverão do duelo fatal, revelado cada vez mais ridículo e excessivo para uma sociedade, segundo se cria, tão alinhada com o progresso da civilização (e do espírito?). Juízo facilmente manipulável? Caráter frouxo? Incompatibilidade epocal? Uma civilização castradora? Talvez de tudo um pouco. Uma coisa parecia certa: num tempo em que se teorizava que a família era a base do progresso, tê-la assim destruída ainda por cima por um sócio de firma criado outrora como um filho por Godofredo era como um recuo, senão um atentado à ordem da sociedade moderna. Exigia-se, portanto, ao desrespeitador que aceitasse a reparação de danos custasse o que custasse; pelo menos esta era a vontade tal como ela saía do espírito de Godofredo, ainda livre de obstáculos exteriores.

A história de adultério narrada em Alves & C.ª passa-se em Lisboa, entre a rua dos Douradores, onde fica sediada a empresa, e a rua de S. Bento, que alberga a casa dos recém casados, ainda sem filhos. É fruto da vontade de Godofredo em fazer uma surpresa no dia do quarto aniversário de casamento com Lulu (assim lhe chamava) que o leva pela calada, “pé ante pé”, a dar de caras com o momento lancinante da traição. Ainda que não se saiba a data exata da redação do manuscrito, situada algures entre 1877 e 1887[1], passível de ser integrado no projecto interrompido das Cenas da Vida Portuguesa; este pequeno romance ou novela em que “não há digressões, nem declamação, nem filosofia: tudo é interesse e drama, e rapidamente contado[2]” (Queirós, p. 9) contém alguns dos elementos típicos do romance naturalista já referidos anteriormente: família pequena-burguesa, geralmente, de Lisboa ou Porto, primeiros anos de casados, sem filhos e de situação económica variável (Santana, 2007). No centro do conflito, o adultério feminino causado pela ociosidade: “[Ludovina] amaldiçoava a sua estupidez, caindo assim nos braços dum sujeito que não amava, de quem não recebia prazer, levada àquilo sem razão, por tolice, por não ter que fazer, nem ela sabe porquê!” (Queirós, p. 81). Todavia, o fim de Alves & C.ª não está de todo alinhado com o desfecho habitual desses romances cuja transgressão da ordem é “infeliz nas consequências e exemplar na pragmática” (Santana, 2007, p. 157). Não há uma ruína óbvia no texto. Antes pelo contrário, “na Rua de S. Bento entra[va] de novo a ordem e a alegria” (Queirós, p. 166). Como sumariza Maria Filomena Mónica, “a heroína peca, mas acaba feliz. O galã comete adultério, mas continua na firma. O marido traído acomoda-se a tudo e tudo esquece” (p. 9-10). A única personagem afetada pela desgraça é Machado, porém não como consequência das suas ações e sim da arbitrariedade da morte, que primeiro lançou o seu véu negro sobre a mãe e posteriormente sobre Cantanhede, uma rapariga com quem casara repentinamente. Ainda assim, nenhum destes infortúnios serve de motivo para que se lance ríspidas condenações à vida. Terminado o luto, “de novo a vida continu[a], banal e corredia, como ela é” (p. 179).

É fácil vermos em Alves & C.ª uma crítica à sociedade burguesa na sua preocupação extenuante em manter as aparências, porque “o pior é o falatório” (p. 71). Godofredo evitou despedir as empregadas, cujas presenças o incomodavam, pois também se aproveitavam da situação, para que o caso de adultério não fosse conhecido em todo o bairro, como ofereceu uma mesada ao sogro para que ele, a Lulu e a irmã Teresinha passassem o Verão na Ericeira, longe dos olhares suspeitos dos vizinhos, dando a impressão que ainda estavam juntos, já que Godofredo não queria Lulu em sua casa, etc.. Também com relativa facilidade se compreende que Eça denuncia o perverso gosto da sociedade burguesa pelo adultério e como o mesmo compensa[3]. Lulu é apanhada com um homem e, apesar disso, recebe a quantia de trinta mil-réis, tendo a irmã ficado pasmada com isso. Quando Carvalho, amigo próximo de Godofredo, soube que ele dera aquela mesada comentou que se tratava de “uma gratificação dada à infâmia” (p. 108). Mas se por um lado, Godofredo era vítima de adultério; pelo outro, Teles Medeiros, um dos seus melhores amigos, era o causador desse mesmo transtorno a outros maridos, que confessa a aventura quase desastrosa da noite anterior com uma mulher casada a Godofredo e Carvalho antes destes lhe contarem que estavam ali para tentar resolver uma situação semelhante. Isto demonstra como o adultério estava impregnado em toda a sociedade burguesa. É ainda evidente a crítica à falta de vigor da classe burguesa que, receosa das consequências dos seus actos mais intempestivos, é capaz de deixar esmorecer uma infâmia que ataca a estabilidade do seio familiar se isso significar a preservação de uma relativa ordem, não só na vida privada como na vida pública, nomeadamente no mundo dos negócios. A personagem que mais naturalmente corresponde a este paradigma é Godofredo Alves, que, no decorrer da narrativa, deixa arrefecer a sua fúria inicial e a certeza de um desfecho trágico para si ou para Machado, terminando na mais insólita pacatez. Porém, não se trata do definhamento isolado de uma postura de um indivíduo da sociedade burguesa. Carvalho e Medeiros – juntamente com as testemunhas de Machado, particularmente Nunes Vidal, “rapaz de experiência em coisas de honra” (p. 120) – são os principais contribuidores para o desagravamento da situação, chegando ao ponto de convencer Godofredo de que não se tratou de um caso de adultério, mas de um simples namoro. Como não se tinha a certeza do que afinal se passara, o melhor era nem sequer haver duelo, porque “se houve adultério, a espada ainda é pouco; mas se o não houve, é demais…” (p. 136). Sob o suposto código de honra (um tanto hipócrita no caso de Medeiros, já que este seduzia mulheres casadas), as testemunhas são convocadas para zelar pelos interesses dos intervenientes. Todavia, este processo desenrola-se de uma forma a que nenhuma das testemunhas fique totalmente comprometida, dando a impressão à vítima e carrasco, através de uma argumentação habilidosa, que tudo fizeram para defender as suas honras. As seguintes expressões de Carvalho e Medeiros enquanto contam a conversa que tiveram com as testemunhas de Machado a Godofredo revelam bem essa vaidade de tudo ter feito para proteger a honra:

Tudo isto muito bem dito — acrescentou Medeiros — tudo muito bem explicado, com bonitas palavras… Sério, gostei do Vidal. (p. 121)

O Vidal é muito esperto, mas olha que eu não me calei. Pergunta ao Carvalho…

— Andaste como um herói — disse Carvalho. (p. 122)

Tanto Medeiros e Carvalho nem sequer seriam testemunhas de Godofredo se porventura se tratasse de um duelo mortal. Confessa Carvalho ao seu melhor amigo: “(…) para salvar a honra, sim senhor. Cá estou. Lá coisas trágicas, não!” (p. 107). Nunes Vidal, zelador da honra de Machado, dissera que “se estivesse convencido de que havia ali uma traição do Machado, um crime de adultério com a mulher do sócio, ele não se meteria no caso” (p. 134-135). Em suma, nada de grave, como resultado final, poderia suceder-se. Godofredo estava sozinho na sua revolta sedenta de sangue e é bem notória a sua irritação quando ouve pela segunda vez que não há motivo para tal: “Não há motivo! Não há motivo! Então qual é o motivo bastante forte para que dois se matem?…” (p. 113).

A recusa de vários elementos da sociedade burguesa em participar num duelo sangrento não só é o reflexo da mudança dos tempos, ou seja, as personagens de Alves & C.ª habitam uma época que, ao procurar soluções racionais para os conflitos do homem, não está mais interessada em proceder irrefletidamente. Falamos, portanto, do “pragmatismo burguês dos tempos modernos, que opõe soluções viáveis ao intransponível do universo mítico” (Santana, 2007, p. 379). A recusa de um duelo sangrento, dizíamos, é também a demonstração das amarras (os códigos morais e as leis) da própria civilização de que fazem parte. A Lei está investida de uma autoridade tal que é capaz de inspirar medo, destaque-se o momento em que Carvalho toma consciência de que Godofredo o procurou para ser sua testemunha (cf. Queirós, 1975, p. 101), obrigando a uma constante reavaliação das ações a tomar. É precisamente por serem “homens de honra e de bom senso” assim como “homens de sociedade” (p. 135, destaque meu) e não uns párias que Nunes Vidal, Carvalho e Machado levam até ao absurdo a negociação dos termos do duelo e sua anulação, pois há uma reputação a manter.

Godofredo Alves encarna o homem que ainda se acha capaz de um gesto trágico, obviamente herdado do romantismo, em contra-corrente com a época na qual vive, pondo nas mãos do destino a sua vida: “Era muito simples: tirarem à sorte, ele e o outro, qual dos dois se devia matar!” (p. 59). Eça de Queirós no início do romance traça-lhe um retrato bem esclarecedor. Godofredo Alves “era ainda, apesar das preocupações do negócio, ligeiramente romântico” (p. 23). Este temperamento e sentimentalismo herdou-o da sua mãe, que, antes de se voltar para Deus, se dera “às coisas literárias, aos luares, aos amores de romance” (p. 24). Godofredo acabou por se tornar num homem prático, mas ficara-lhe “na alma um fundo de sentimentalismo romântico, que não queria morrer” (p. 24). Alves & C.ª é também a história do apaziguamento da dicotomia da alma romântica e do homem prático no mesmo ser humano cujo conflito é bem evidente neste trecho:

(…) agora, gradualmente, todas as ideias que na febre da véspera lhe tinham parecido simples e fáceis, iam tomando, naquela luz clara da manhã, entre a rotina da sua toilette, um aspecto pouco natural, falso, que repugnava ao lado positivo do seu carácter. (p. 87)

Impossibilitado de cometer um crime, por ser um “homem de sociedade” e pelas consequências desse ato serem difíceis de suportar (cf. p. 60-61), Godofredo Alves, fantasiosamente herói romântico, deixa nas mãos dos seus melhores amigos o destino a dar à sua tragédia, não assumindo qualquer papel de liderança. Ainda assim, a inação de Godofredo, mais do que ser a sua humilhante derrota, é antes a sua salvação, porque o livra dos horrores da morte e/ou ferimentos e o restitui à plácida vida burguesa, em que se esquiva do ridículo, mantém a firma intacta, livra Ludovina da má fama e conserva um sócio inteligente e trabalhador e quem sabe um amigo (Queirós, 1975). Há um laivo de hipocrisia na paz que se estabelece no seio daquela família burguesa (em última análise, é o sintoma da saúde da própria classe) incapaz de exercer uma mudança no meio apesar de ter sido afetada naquilo que seria o motor do progresso: a família.


Notas:

  1. Este leque temporal foi sugerido pela primeira vez pelo filho José Maria D’Eça de Queirós, em 1925, quando foi publicado o romance. Na “Nota Prévia” (Queirós, 1975, p. 5-13) apontava que Alves & C.ª podia ser um desses estudos sociais das Cenas da Vida Portuguesa. No entanto, nenhum dos doze títulos se aplicava à novela. Ainda assim, através do recurso a trechos de cartas do seu pai, José Maria consegue urdir um argumento sólido de como Alves e C.ª se encontrava dentro dos parâmetros formais que Eça estabelecera para os estudos. Maria Filomena Mónica (2017, p.10), num prefácio ao livro, menciona em nota de rodapé uma aproximação mais exata da data do manuscrito (1887) proposta por Guerra da Cal depois de ter analisado a marca de água do papel, junto com outros manuscritos que se encontravam dentro do baú. Desse modo, os manuscritos não poderiam ser anteriores a 1883.

  2. Sobre Alves & C.ª, Eça de Queirós não deixou uma palavra escrita. É precisamente o silêncio em torno desta obra que José Maria salienta no prefácio, que vinha desde há dois anos a explicar e a historiar os livros do pai: “Alves & C.ª não tem história. Alves & C.ª não se explica. Não se sabe donde veio, nem de quando data. Não se sabe sequer o título que o autor lhe destinava. Alves & C.ª é anónimo e desconhecido. Nunca o autor se lhe referiu em carta, ou numa conversa, ou num artigo; nunca o ofereceu ao editor; nunca sequer o mencionou” (Queirós, 1975, p. 5-6). O excerto citado pertence a uma carta que Eça enviou ao seu editor para tentar vender a ideia de que era interessante e rentável o projecto que idealizara.

  3. Eça de Queirós (2003, p. 387), num longo artigo de 1872 para As Farpas, discorre sobre “uma questão singular [que] tem, há tempos, sobressaltado legitimamente os maridos, as pessoas sensíveis e os fabricantes de armas proibidas”. Isto é, a questão do adultério. Nele, Eça fala sobre a natureza do adultério, se é “um facto fatal da natureza eterna, ou é um facto fatal da moral moderna” (p. 390); como a “mulher é educada exclusivamente para o amor — ou para o casamento, como realização do amor” (p. 395) e suas consequências. Como elemento de comparação a esta educação, é mencionada a das mulheres da pequena burguesia e das classes operárias e agrícolas, que têm grande parte do seu tempo ocupado, tanto pelo trabalho como pela lide da casa. Por fim, mostra como “o adultério é um facto aprovado pela opinião” (p. 401). Em relação ao homem que seduz as mulheres casadas, não só a sociedade se lhe refere com adjectivos positivos, como a sua experiência nessas aventuras é uma mais valia para ser bem visto.


BIBLIOGRAFIA

Queirós, Eça de (1975). Alves & C.ª. Lello & Irmão — Editores.

_____ (2003). Uma Campanha Alegre de As Farpas. Livros do Brasil.

Mónica, Maria Filomena (2017). Prefácio in Eça de Queirós (ed.), Alves & C.ª. Alêtheia Editores.

Santana, Maria Helena (2007). Literatura e Ciência na Ficção do Século XIX A narrativa naturalista e pós-naturalista portuguesa. INCM.